sentado no banco de alvenaria, levei minha mão para a parte de trás do assento, para me apoiar melhor e senti-o sujo. minha primeira reação foi a de limpar a minha palma. mas, rapidamente, percebi que não sentia nojo, nem enxerguei sujeira naqueles grãos, pelo contrário. olhei para o resto de barro que a chuva tinha deixado ali, onde minha mão havia pousado, quis pegá-lo, passei meus dedos na terra, noteia sua aspereza e quando fechava meus dedos sobre ela, a sua maciez. acariciei lentamente. bolinhas amarelas, pretas, vermelhas. uma composição infinita de minúsculos pedacinhos de algo grande que a qualquer outro que pousasse sua mão ali acidentalmente, despertariam uma vontade de espanar as palmas e soltar um
eca. talvez eu mesmo, mas hoje, não. vou guardar essa areia nas minhas unhas roídas o resto do dia. e quando quiser me lembrar de como é sentir essa metáfora que inventei só pra mim - sobre eu e os outros, levarei minhas falangetas à boca e chuparei meus dedos avidamente e mastigarei as tais pedrinhas crocantes. quanto aos vermes, não os ignoro; não me importo também. afinal, nunca estrelas eu os supus.*
*para entender, ouvir
adriana calcanhoto, o verme e a estrela.