eu odeio as pessoas sem imaginação.
e odeio ter mais do que deveria.
sentado no banco de alvenaria, levei minha mão para a parte de trás do assento, para me apoiar melhor e senti-o sujo. minha primeira reação foi a de limpar a minha palma. mas, rapidamente, percebi que não sentia nojo, nem enxerguei sujeira naqueles grãos, pelo contrário. olhei para o resto de barro que a chuva tinha deixado ali, onde minha mão havia pousado, quis pegá-lo, passei meus dedos na terra, noteia sua aspereza e quando fechava meus dedos sobre ela, a sua maciez. acariciei lentamente. bolinhas amarelas, pretas, vermelhas. uma composição infinita de minúsculos pedacinhos de algo grande que a qualquer outro que pousasse sua mão ali acidentalmente, despertariam uma vontade de espanar as palmas e soltar um
eca. talvez eu mesmo, mas hoje, não. vou guardar essa areia nas minhas unhas roídas o resto do dia. e quando quiser me lembrar de como é sentir essa metáfora que inventei só pra mim - sobre eu e os outros, levarei minhas falangetas à boca e chuparei meus dedos avidamente e mastigarei as tais pedrinhas crocantes. quanto aos vermes, não os ignoro; não me importo também. afinal, nunca estrelas eu os supus.*
*para entender, ouvir
adriana calcanhoto, o verme e a estrela.
a minha vitrola está no
repeat.
ok, talvez vitrolas não tenham modo
repeat. e eu, certamente, não tenho vitrola. mas eu gosto de pensar que tenho. e gosto de ouvi-la re-tocar a mesma música.
"repetindo, repetindo, repetindo, como num disco riscado. o velho texto batido, dos amantes mal-amados, dos amores mal-vividos"... nunca escondi de mim que adorava remexer na terra já remexida de uma cova rasa; ou funda, não fazia diferença. eu ia lá com uma pá ou escavadeira - o que fosse necessário - para reviver o passado em bons tragos de cigarro, reconstrangindo a minha garganta.
essa tarde me rebateu a reconhecida dúvida. uma intragável que, quando antes engolia, me retornava num refluxo já reincidente. quaisquer fraquezas que fizessem-me tremer as pernas frágeis ou viessem me quebrar os braços (pois saibam, o coração também tem membros), deixavam-me mole como uma lesma numa manhã de maio. abrindo caminho para as lembrançaws tão vivas na minha mente e tão mortas e ausentes na mente dele. bem, essa tarde veio para me ajudar. ela veio me dizer que talvez agora eu possa fagocitar a dúvida de vez, sem re-volta, mesmo sabendo que ela vai se manter dentro de mim, intacta e indigerível. indirigível.