as campainhas são trombetas.
pois, se estas últimas serviriam para anunciar o início do grande fim, as primeiras, não muito distantes, vêm para anunciar a mudança, ainda que cheia de material reciclado e cópias mal reproduzidas.
a campainha do interfone ressonou leve e a voz lá de baixo avisou que o lucas subia. estava só de cueca, corri para por minhas roupas - as mesmas que havia tirado horas antes. mas, enquanto não as achava, pensei que talvez fosse melhor por só uma blusa. afinal a cueca era uma bonita, e a minha bunda, também.
a campainha da porta da sala gritou e uma luz amarela do outro lado avisou que meu coração sorria. ois, saudades e caracóis se misturam num abraço distante. adentro a cozinha e, sentando num banco, sirvo dois copos com umbu-cajá. ele saca um livro da bolsa, eu olhando o gole descendo pescoço abaixo.
o livro já era um amassado e um pouco sujo. estava há muito tempo naquela bolsa, disse. eu não me importo, tranqüilizei-o. não me importo mais com amassados nem sujeiras hoje em dia. fazia muito tempo que carregava esse embrulho, vindo de tão longe e de tão perto - o pedro mandou por ele -, só para mim. agora já acho até charmoso um livro ser ensebado e gasto, ainda que virgem. de repente, sinto-me assim. na primeira página vinha a dedicatória:
paulinho,
este livro dispensa embalagem para presente, porque ao abrí-lo, será uma janela, e ao fechá-lo será uma porta.
beijos,
pedrinho (set/2004)ele é um fofo, falou. eu o amo, constatei. não o lucas, o pedro. ou os dois sendo que mais intesamente esse que aquele. e passava os dedos pelas folhas e pelas orelhas encardidas do meu presente, mas ainda vi quando o último gole passou pelo pescoço dele. tinha pressa, se levantou. e fechando a bolsa, já estava em pé na sala. abri a porta, que me pareceu mais oca que nunca. despedidas, saudades e línguas se misturam num beijo pedido.
ele foi embora, mas os lábios ficaram e beijaram muito tempo ainda.*
*pretensiosa paródia do poema "banco de praça", carlos drummond de andrade. (me corrijam se estiver errado).
ele:
- psiu.
- oi.
- não se ofenda, mas achei uma coisa e só me lembrei de você:
puta caridosa- e se eu eu achar um elogio?
- foi o que suspeitei.
tenho um caderno amarelo, de folhas acinzentadas, onde costumava escrever, quando não aqui. tomei um banho e pensei em rabiscar algo nas páginas talvez já mofinhas. penso que minha caligrafia talvez tenha mudado e que eu também devo estar diferente.
então rio de mim mesmo, ingenuamente pensando em eternizar a minha mudança, como se ela representasse estado fugidio ou fluidez estática.
para quê registrar as variações? quando essa é minha única constância e semelhança!
é quando percebo uma pequena felpa de madeira espinhando meu coração, dizendo que é para eu salvar. que aquela amizade deve ser resgatada e o problema, resolvido! mas e quando não se sente nada, nem ao menos uma semente de dó pelo sofrimento alheio? e a culpa vai me comendo os intestinos, e as sobras, expulsando.
sentimentos não devem ser resgatados.
eles simplesmente são.
e deixam de ser.
o lábio superior dele nem se mexia.
quando falava parecia um ventríloco, sem ser daqueles que cabiam no colo, dos maiores mesmo. o rosto sério impunha respeito, mas quando sorria - quase sempre das próprias piadas - , ainda sem mexer o beiço de cima, provocava gargalhadas dentro de mim que se exteriorizavam em pequenos espasmos e soluços, chamando a atenção dos vizinhos - que aliás, não prestavam atenção em mais nada.
a aula dele era a única que gostava. porque ele tem pensamentos duros e penetrantes - nada de enxergar falicidades aqui, ok?. e naquele dia o assunto era "literatura e psicologia". os que sentavam logo nas primeiras cadeiras discutiam acalourados sobre a suposta neurose que abatia aos escritores. eu, lá atrás, só enxergava o lábio que não se mexia. mas meu ouvido, sempre distraidamente esperto, capturou a leitura que o professor fazia:
"o artista, diz Freud, é originalmente um homem que se afasta da realidade porque não consegue entrar em acordo com a exigência de renúncia à satisfação instintiva (...) assim, por certo caminhos, ele se torna o herói, o criador, o favorito que desejava ser, sem o caminho tortuoso de criar alterações reais no mundo exterior."
tento encontrar onde ele havia achado aquilo no texto e me deparo com algo maior, que me mata.
"a maioria dos escritores se esquivou a subescrever o freudianismo ortodoxo ou a completar o seu tratamento psicanalítico - que alguns haviam começado. não quiseram ser "curados" ou "ajustados", pensando que deixariam de escrever se fossem ajustados ou que o ajuste proposto fosse a uma normalidade ou a um ambiente social que rejeitavam como hipócrita ou burguês. assim, Auden afirmou que os artistas devem ser ser tão neuróticos quanto puderem suportar (...)" in: "teoria da literatura e metodologia dos estudos literários", rené wellek & austin warren.
batidas fortes no meu coração.
glândulas espremidas.
olhos rasos d'água.
identificação.
a frase de efeito de hoje é:
ser você mesmo é não se importar com o estigma que você carrega por não tê-lo sido na hora certa.
estou farto de me forçar a lidar com ela. cansado de manter a mente aberta e tentar enxergar sob a ótica alheia algo que em mim possa estar destituído de razão ou perfeição. a tática agora é
laisser-passer. eu não sou perfeito, eu conheço meus defeitos, eu sei das minhas qualidades e posso viver em harmonia comigo mesmo. tudo junto, ao mesmo tempo e de trás pra frente.
no me gusta implodir meus conceitos com periodicidade semanal. não sou andro-alvo para que se apontem dedo-setas e nem covarde para fugir dos problemas. é só que eu não preciso correr atrás deles.