po.lis.sí.la.bo

domingo, maio 15, 2005

 

conto à luisa

Como tinha recebido a carta dela ontem, tive tempo de reler incontáveis vezes. Dessa última - acabo de devolver o papel ao seu envelope - chovia bem fino e a fumaça de água que descia ia enrugando a celulose branca. sentava no já familiar banco de alvenaria do pátio. Gosto desse mais que dos outros, pois por ter sido construído ao pé de uma mangueira (cheia de mangas que nunca caem) acabou ficando mais alto que os demais: as raízes têm força de Hércules.
E, sentado nele, posso balançar as minhas pernas. Assim como fazem as crianças em suas cadeiras quando as têm curtas.
Foi desse jeito que reli, como quem decora um poema para alguém. Sei que poucos compreendem o súbito espírito de que se é tomado para se escrever uma carta assim, sem rascunho e ainda sem erros. Por isso valorizo as letras tortas de Luisa. Essa não me exorciza. Sinto falta. Me veio agora que todas as pessoas do mundo deveriam - embora nem todas mereçam - ter cartas assim só para elas. Não missivas quaisquer. As boas cartas devem ser tão imprevisíveis quanto possível, e seu corpo o quanto mais borrado puder e seus envelopes abertos o menos rasgados quanto conseguirmos abri-los.
Só as cartas banais sobrevivem intactas.

terça-feira, maio 03, 2005

 

des surprises dans la nuit

. A cor verde ou porque eu gosto de abacate

Eu nunca gostei de fruta madura. Eu sempre tive muito medo de encontrar uma lagarta inofensiva ou, na pior das hipóteses, me deparar com um lado pobre. A minha rejeição nunca foi ao doce, ao gosto suculento quem tem uma fruta vermelha, mas ao medo de não saber distinguir o seu ponto exato e sentir o gosto do fel. Então assim, eu fui optando por aquelas que, embora não tivessem o gosto tão adocicado, não me pregariam peças. Porque vocês sabem, um pequeno pedaço podre contamina todo o resto. Uma partícula infinita de impureza corrompe a substância mais nobre, rebeixando-a ao nível de sua própria degradação*. Quando criança eu adorava ir ao sítio da minha avó e pegar no pé aquelas ciriguelas verdes e duras. Eu passava longe das amarelas e macias. Eu acho que não me permitia por covardia. Engraçado hoje, como eu consigo fazer relações banais disso com a minha vida. Como eu pondero demais e não me permito gostos desconhecidos, me deixando no conforto daquilo que eu já conheço. No mais, às vezes eu acho que por isso também eu adoro abacate. É o tom verde dele que me abre o apetite.

* In Hamlet, de Shakespeare




extraído do blog de paula, com quem convivia há meses e só hoje conheci.

Archives

dezembro 2004   janeiro 2005   fevereiro 2005   março 2005   abril 2005   maio 2005   junho 2005   julho 2005   agosto 2005   setembro 2005   maio 2007   junho 2007   julho 2007   agosto 2007   setembro 2007   outubro 2007   dezembro 2007   abril 2008   fevereiro 2009  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?