É a musica mais linda do disco que me cai as mãos. O disco da minha vó. Antigas cantigas brasileiras. Minha vó morreu em 2003; assim como devem morrer as avós; de repente, singelamente, silenciosamente, talvez tenha ido como veio, inda não sei, mas esta lagrima, o cristal liquido que me molha o rosto, me faz repetir de novo a canção. Só mais uma vez, é bom chorar assim, não me mande para o canto, *deixe-me crer o que nunca poderei ser.
Mi maior
Modinha
Teodomiro Alves
PereiraModesto A. Ferreira
É a ti flor do céu que me refiro
Neste trino de amor, nesta canção,
Vestal dos sonhos meus, por quem
Suspiro
E sinto palpitar meu coração.
Vestal dos sonhos meus, por quem
Suspiro
E sinto palpitar meu coração
Ó dias de risonhas primaveras,
Ó noites de luar que eu tanto amei,
Ó tardes de verão, ditosa era,
Em que junto de ti amor gozei.
Não te esqueças de mim, por piedade,
Um só dia, um só instante,
Um só momento.
Não me lembro de ti
Sem Ter saudade,
Nem me podes fugir
Do pensamento.
Quem me dera
Outra vez esse passado.
Essa era ditosa em que vivi.
Quantas vezes na lira debruçado,
Cantando em teu colo adormeci
*Fernando Pessoa
aquela
fraqueza chata de validar o eu-mesmo através de um outro eu... mania freudiana feia. coisa mais paulina.
O que me deixou a sensação de. de pensar sempre em anecy, quando entro em elevador. De imaginar ela caindo. O que ela pensou no caminho? Pensou em dona Lucia? Em Glauber? Nos óculos escuros que caíram primeiro? - São caros este óculos, como vou comprar outro.E lembro do poema do antigo namorado dela. Que chamava deus, de deus terrível, por que tirava a muque a vida. sem dó, o deus terrível, que empurrou anecy. que tirou a vida de anecy. E vontade de ver o filme da vida segundos antes da morte. o filme meu e de anecy. e este nome que não me sai da cabeça. E o slow motion dela caindo. O fade branco no final. O zoom sinistro nos seus olhos. O momento de dizer, corta! Corta! Que anecy morreu. O que me fez lembrar que no elevador eu sempre penso em anecy e o que também me faz lembrar que o deus, o deus terrível, um dia também vai me empurrar. Como? Não sei. Só espero que não seja em slow motion.
depois de assistir ao filme, acendi meu cigarro. sinto-me tão bem e peculiar. não-comum. eu mesmo. e, ao mesmo tempo, penso que se os acontecimentos da minha vida dependessem de mim, e só, é provável que eu estivesse imitando Almodóvar. mas não. existe algo maior, que foge do meu controle. então, ao dar a última tragada - quis correr para o banheiro - senti o jantar vindo-me garganta acima. quase. não sei o que tenho, mas sei que tem a ver com quem acredito ser e com as coisas que me afetam. quase tudo me afeta. quis escrever para não esquecer - não confio na minha lembrança -, e porque queria que você soubesse disso.
madrugada de 13 julho 2005
de uma carta-resposta a outra que ainda não chegou.
vem chegando um trem, vindo do planalto central.
o trem que vem de avião e desce nos trilhos da cidade. uma maria-fumaça à todo vapor, cheia de janelas, com poucos vagões e muitos passageiros. uma máquina pesada, barulhenta, pilotada por um maquinista que não sabe regular a velocidade com que passa. sei que os trens chegam e partem logo em seguida; mas se esse é o trabalho deles, o meu é ficar no meio do caminho.
tem trem que freia, rangendo o metal, prendendo o vapor, apagando a fornalha. tem trem que não pára, nem apita, nem diminui, nem tampouco olha para quem deixou desmembrado quilômetros para trás.
do trem que eu espero, não espero nada, a não ser o que se espera de qualquer trem: que passe. e eu, que espero...
espero mais
espero mais
espero mais
espero mais
espero mais
pfff...
não quero mais
não quero mais
não quero mais
não quero mais
não quero mais
quem vai chorar?
quem vai sorrir ?
quem vai ficar?
quem vai partir ?*trem das sete, Raul Seixas
ontem eu fui pruma festa e fiz amizade com um pé de jambo; simpaticíssimo.
vou registrar
para lembrar
que hoje eu vivi a tarde mais só da minha vida.