vem chegando um trem, vindo do planalto central.
o trem que vem de avião e desce nos trilhos da cidade. uma maria-fumaça à todo vapor, cheia de janelas, com poucos vagões e muitos passageiros. uma máquina pesada, barulhenta, pilotada por um maquinista que não sabe regular a velocidade com que passa. sei que os trens chegam e partem logo em seguida; mas se esse é o trabalho deles, o meu é ficar no meio do caminho.
tem trem que freia, rangendo o metal, prendendo o vapor, apagando a fornalha. tem trem que não pára, nem apita, nem diminui, nem tampouco olha para quem deixou desmembrado quilômetros para trás.
do trem que eu espero, não espero nada, a não ser o que se espera de qualquer trem: que passe. e eu, que espero...
espero mais
espero mais
espero mais
espero mais
espero mais
pfff...
não quero mais
não quero mais
não quero mais
não quero mais
não quero mais
quem vai chorar?
quem vai sorrir ?
quem vai ficar?
quem vai partir ?*trem das sete, Raul Seixas