. A cor verde ou porque eu gosto de abacate
Eu nunca gostei de fruta madura. Eu sempre tive muito medo de encontrar uma lagarta inofensiva ou, na pior das hipóteses, me deparar com um lado pobre. A minha rejeição nunca foi ao doce, ao gosto suculento quem tem uma fruta vermelha, mas ao medo de não saber distinguir o seu ponto exato e sentir o gosto do fel. Então assim, eu fui optando por aquelas que, embora não tivessem o gosto tão adocicado, não me pregariam peças. Porque vocês sabem, um pequeno pedaço podre contamina todo o resto. Uma partícula infinita de impureza corrompe a substância mais nobre, rebeixando-a ao nível de sua própria degradação*. Quando criança eu adorava ir ao sítio da minha avó e pegar no pé aquelas ciriguelas verdes e duras. Eu passava longe das amarelas e macias. Eu acho que não me permitia por covardia. Engraçado hoje, como eu consigo fazer relações banais disso com a minha vida. Como eu pondero demais e não me permito gostos desconhecidos, me deixando no conforto daquilo que eu já conheço. No mais, às vezes eu acho que por isso também eu adoro abacate. É o tom verde dele que me abre o apetite.
* In Hamlet, de Shakespeareextraído do
blog de paula, com quem convivia há meses e só hoje conheci.